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sábado, 12 de novembro de 2011

Terra molhada


Vim à varanda recolher a roupa. Um vento quente que não esperava fez-me levantar o cabelo de um lado para o outro num movimento incessante daqueles que nos parecem levar para outro sítio que não conhecemos.
Apanhou-me desprevenida esta lestada persistente, que teima em me pairar sobre a pele. Penso que é isso o arrepio perfeito: aquele que nos faz levitar por dentro com os pés agrafados ao chão.
O arrepio que senti à primeira pancada do vento na minha cara levou-me a querer ficar mais um pouco. E sentir o cheiro a está quase a chover. Adoro este cheiro. Faz-me voltar a outros locais e momentos que nem sei bem quais são. É o cheiro anterior àquele de que todos falam, por acharem piada à terra molhada depois de não chover há muito tempo. Prefiro o que vem antes desse. O da promessa. Da expectativa.

Aguardo os primeiros pingos de braços estendidos para fora da varanda. E cai um. Depois outro. Param. Oh! Parecia que ia chover!

E chove. Quando já não a esperava outra vez, a chuva cai com uma violência impressionante. O vento parece perder a fibra com que me recebeu há bocado. É um triste. Fugir por causa de uma chuvinha destas!

E daí... já estou um pouco molhada e agora o arrepio já não é tão estimulante e deixou de me isolar do mundo cá dentro. Sinto genuinamente que me perco de mim quando os meus poros se contraem assim. Vou para dentro antes que estrague o computador.

Sou uma triste! Fugir de uma chuvinha destas...



Raios! Deixei lá a roupa!


sábado, 29 de outubro de 2011

midautumn's night dream

Quando era miúda, vivia numa casa rodeada de árvores, ao lado de uma quinta. Era um ambiente bucólico durante o dia, assustador à noite. E havia um sonho que me acompanhava a partir do dia em que a hora mudava e às 5 da tarde já era de noite: tentava ir da porta de casa até ao portão e vir, sem companhia, sem luz e sem me borrar toda. A meio da viagem para cá, já com aquela sensação do falta-pouco-é-só-mais-um-bocadinho, aparecia uma bruxa, muito engelhada, com uns olhos assustadoramente penetrantes. Enquanto eu corria, corria e parecia não sair do sítio, a velhota era cá com cada sprint! As unhas negras e quebradas arranhavam-me a camisola atrás e eu corria mais depressa e parecia que escorregava. Ainda me lembro do alívio que sentia quando finalmente passava a porta da cozinha acordava.
Hoje é dia delas. Já sei que vou passar a noite a correr. Gostava que me deixassem dormir. Estou cansada. Mas não creio que o façam. As bruxas são, como acabo de ler num teste, muito enconchientes.


domingo, 25 de setembro de 2011

Tenho que arranjar um cãozinho

Hoje acordei tarde! Quando cheguei à varanda já tinha começado o ritual das vizinhas cá da rua no passeio matinal com os respetivos cãezinhos. Já se ouvia a mangueira do administrador do condomínio da frente, que, cumpridor do seu dever, rega as plantas todos os santos domingos.
A dada altura as vizinhas escancaram a boca, especadas a olhar para cima.
Afinal o barulho da mangueira não era do administrador, mas de um morador que, de uma varanda do 4º andar, lavava o carro lá em baixo. Regava-o lá de cima e depois descia as escadas a correr para ensaboar o veículo. Voltava lá para cima e enxaguava. Descia novamente e esfregava mais um pouco. E andou nisto o resto da manhã. Eu também gostava de ter uma moradia, com vários hectares de quintal. Mas até lavo o carro de outra forma.

Tenho mesmo que arranjar um cão. Desconfio que ando a perder umas coisitas por não ter animais que cagam na rua.
O céu está carregado. Tenho que me despachar. Saio da frutaria carregada de sacas carregadas de fruta. Passo apressado, não vou aguentar até casa sem pousar isto tudo no chão. Só mais um bocadinho, só mais um bocadinho!... Ai ai ai... Mas tenho que aguentar! Não vou pousar isto no chão imundo! Ai ai ai... Tenho que me concentrar, a dor nas mãos e nos braços é só psicológica! Os dedos não estão inchados, nem os braços a ceder ao peso. Ai ai ai...
Cruzo-me com uma velhinha mesmo ao virar da esquina da minha rua. Arrasta-se com um saquito que não deve ter mais do que dois pães. Na mão traz o talão das compras, que lhe voa com uma rajadazita de nada.
Lá pouso as sacas no chão (pegajoso e cheio de nódoas), apanho o talão e entrego-lho, coitada, que não se pode agachar.

- Ah, minha querida, não quero isso para nada. Fui eu que o deitei fora. Já agora faz-me o favor de o pores no lixo e que Deus te pague quando quinares!



Hein?!?

domingo, 21 de agosto de 2011

Plurissignificação e subjectividade



Hoje fomos apanhados por uma grande chuvada acompanhada de trovoada. Ainda tentei manter-me na praia, mas a coisa agravou-se e foi impossível. Estava ao pé do mar, corri o mais rapidamente que pude até ao carrinho do miúdo, agarrei em todas as nossas tralhas que estavam espalhadas pelo areal, enfiei-as nos sacos aleatoriamente e percorremos dois quarteirões, no meio da debandada geral (à nossa frente, um guarda-sol com pernas quadradas e mal depiladas e um bebé ao colo corria e gritava com voz máscula "Eia, man, que parecem Kalashnikovs!"), para encontrar uma varanda que nos protegesse. Ela ficava por cima de um café. À porta estava um cavalheiro a apreciar a confusão, fumando um cigarro pensativo, como dizia o outro. Eu levava o João no carrinho e os sacos todos pendurados. Afastou-se milimetricamente para nos deixar aproximar: "Chegue-se para dentro, agasalhe o menino!", disse amabilíssimo. Eu ia aproximando toda a carga do senhor e ele ia repetindo Chegue-se, chegue-se, que ela cai forte!
O chuveiro foi abrandando, calmamente, até que parou em definitivo. Mas o homem achava que não, que ainda caía forte ou que ainda voltaria a cair e insistia e insistia. Lá nos fizemos ao caminho, para regressar a casa.
Uns metros depois apercebi-me que levava uma mama de fora.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Venho enternecida de uma visita ao zoo. O que eu admiro gestos de respeito e carinho e solidariedade e entrega. Uma senhora não quis aborrecer os animais do zoo, cometendo a grave falta de utilizar a expressão "apanhar no focinho". Mãe dedicada, ia passeando o seu cigarro, deitando aqui e ali, pelo canto do olho, intensa atenção a um rapazinho que, pelos vistos, está a aprender a andar sozinho. A dada altura o miúdo cai, depois de tropeçar num paralelo: "Se te magoas dou-te! Tu hoje ainda vais levar nos olhos!".

Que delicadeza! Que sensibilidade! Venho enternecida da visita ao zoo.


domingo, 17 de julho de 2011

Orgulho marsupial


Ontem à noite, esta casa testemunhou algo que me deixou boquiaberta: o meu avô de 92 anos, que já se arrasta um bocadito para chegar ao café, jogou à bola com o João com uma genica fantástica, com direito a fintas e grandes acrobacias!
As crianças despertam-nos a juventude (como eu gostava de me lembrar disto nas noites em que não dormi nada para lhe dar de mamar...) e ajudam-nos a regressar aos tempos em que éramos mais nós do alguma vez voltaremos a ser.

O pirata trouxe-me tanto de novo, mas também me lembra todos os dias de quem me compõe. Lembra-me o gosto pelas coisas do campo dos meus avós paternos, o sorriso protector da minha avó materna, as mãos ternas do meu tio, a cara e o cabelo inesquecíveis do meu irmão, o incrível engenho do meu pai, a inteligência encantadora da minha mãe e, pelos vistos, segundo a própria, o indiozinho também tem o queixo igualzinho ao da minha tia paterna.

Parece que herdou o jeito para futebol do meu avô materno. Ah! Os bons velhos tempos do Sport Progresso de Paranhos...

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Coisas boas


Nos dias em que tudo corre bem, lembro-me que sorrio quando

leio as páginas do lado direito de um livro, as que me permitem pousá-lo no colo e ocupar as mãos com um copo de batido de maçã e o pacote de bolachas

encontro espontaneamente amigos que já não vejo há anos

estou perante uma turma inteira bem disposta e com vontade de aprender

sinto a água do mar nos pés pela primeira vez no ano

revejo o mesmo filme que já vi dezenas de vezes e antecipo as cenas

ponho alguém a chorar a rir

janto no verão sem ter que ligar a luz da cozinha

lambo a tampa do iogurte

tenho que ler um documento chato e descubro que a última folha só tem uma página escrita

converso com música de fundo e a letra combina com o tema da conversa

rapo a bacia em que bati a massa do bolo

fico na praia até às 20 horas num dia de calor

chego antes da hora marcada

tenho vontade de sorrir a meio de um beijo

recordo o cheiro da minha escola primária

solto o cabelo depois de andar todo o dia com rabo de cavalo

bebo chocolate quente, mesmo quando está calor

digo bom dia

cheiro hortelã

adormeço a ouvir a chuva

estreio uma caneta

estou sozinha em casa, com a música nas alturas, a cantar aos gritos e a dançar desenfreadamente

vejo a carpete da entrada aspirada

observo alguém de quem gosto a dormir em tranquilidade.



Tenho saudades desses dias.



Por outro lado, hoje só detesto velas de cheiro e o frio que sinto quando saio do banho.



Nada mau.

domingo, 10 de julho de 2011

A última grande nalgada na minha última grande obsessão

Há um ano, estava ainda a dar de mamar e tinha uma mania gigantesca: não podia apanhar nada para não o passar ao miúdo.
Ora, em plenas matrículas, um dos alunos que tinha reprovado chegou cabisbaixo, envergonhado. Sentou-se à minha frente, depois de me cumprimentar, e ali ficou a olhar para o chão. Achei que alguma coisa estava fora do sítio, mas não me apercebi logo do que era.
Depois de preenchidos todos os documentos, perguntei se estava tudo bem.

Oh, nem por isso. Não tenho sorte nenhuma. Veja lá: não me chegava ter reprovado (andaste todo o ano a brincar), ainda apanhei varicela (salto para trás)... e estou com piolhos! (ahhhhhhhh!!!!!!)

quinta-feira, 23 de junho de 2011

São João

Quando era miúda, íamos para o actual recinto onde se faz a feira do artesanato em vila do conde levar marteladas na tola e comer algodão doce. Sempre que me lembro disto, vem-me aquele sabor cor-de-rosa à boca e parece que fico com as mãos pegajosas. Acho que nunca me conseguiram acertar com a parte fofa do martelo e aquilo dói que é doer! Mas lá estávamos, ano após ano, a percorrer os caminhos em terra vermelha partidos a meio por bancos de jardim em ferro pousados nas fatias de relva.

Também havia pipocas coloridas! Mas o algodão doce...