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sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Rorschach

Há quem o faça com nuvens. Nós preferimos as pedras das paredes das tascas.


Olhem, meninos! Aquela pedra parece um sapato!
Nãããã...
Uma bota?
Hummm... No máximo parece uma rampa de skates.
Ok. E aquela? Não parece mesmo um elefante?
Sabem o que me parecem estas pedras todas?
O quê, João?
Pedras.... Posso comer um corneto?

Quando está no topo do entusiasmo, o João informatiza tudo

E eu estava a dar mergulhos e depois fui buscar os óculos e o tubo de snorkel e então esqueci-me que estava a usá-los e fui tocar no fundo da piscina e aquilo deu erro. 


É, meu filho, há downloads assim.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

À noite deito-me entre os dois e ali ficamos até as pestanas serem mais pesadas do que a vontade de brincar. Ontem o Pedro quis mudar de sítio e ficar abraçado ao irmão. Fiquei numa ponta, portanto. Mas assim que o pequenito adormeceu, passei-o para o seu lugar e fiquei novamente no meio. O João achou piada às mudanças e perguntou-me, com a voz pesada de sono, por que tinha voltado para o meio. Disse-lhe que é ali que gosto de estar. 

E tu, João? De que lado preferes adormecer? Esquerdo ou direito?
Ao pé de ti, mamã.

Ó mãe, canta mais uma! Ó mãe, canta mais uma!
E eis que, de repente, sem saber mais onde ir buscar cantigas diferentes para os entreter, começo a cantar a do genérico das Fábulas da Floresta Verde que via em 1985 do início ao fim. Mas como é que me lembro da letra todinha sem uma única falha? E a seguir veio a do Dartacão. E a seguir a dos Flinstones. E por aí fora. E é então que aparecem as memórias de verão. A praia de maio a novembro. Tantas vezes a chuva a bater na toalha. As calipadas ao longo do dia. Os croissants e os lanches mistos a roer a fome de fim de tarde. O leite achocolatado em cima do muro. As fugas de bicla para a piscina. Para todo o lado. Os copos de iogurte atirados de um prédio para o outro e as conversas através do fio. As sestas na rede entre uma árvore e a outra. As perseguições detetivescas pela ruelas mais escondidas de walkie-talkie atrás da mão. 


Ainda sinto o nariz queimado do sol.



Só não me perguntem o que fiz ontem.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Gente informada é outra coisa

Ó João, que é que o teu pai gosta de ver na televisão?
O meu pai gosta muito do Pesca Radical e do Ouro Abaixo de Zero.
E a tua mãe?
A minha mão quase não vê televisão. Gosta é de ler. Agora anda a ler A Rapariga no Comboio.

Temos big brother em casa. Neste caso, big son.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

O protagonista chegou agora a casa com um chocolate preto com laranja. Diz que é para ver se adoço, que ando muito amarga. 

Pois, vamos lá ver como fico com a acidez da laranja.
Hoje de manhã fui passear com o meu pequenito. Só os dois. Às vezes sabe-me bem estar só com um deles para poder olhá-lo como deve ser, sem distrações. Caminhamos muito, de mãos e almas dadas, compramos pão e só regressamos a casa quando já não havia nem uma migalha. Gosto tanto destas nossas pequenas tradições que se vão enraizando no dia-a-dia. São vergonhosamente simples mas ganham a maior importância do mundo quando saímos de casa e, em silêncio, as mãozinhas pequenas me puxam para aquele caminho porque é para ali a felicidade, para aquele pedaço de pão com o mundo a girar à volta. 
No regresso a casa, uma obesa de orgulho fez questão de não nos deixar passar no pouco passeio que restava do seu nariz empinado mas que, ainda assim, teria dado para todos. Olhei para ela e atirei-lhe um sorriso. Vim o resto do caminho a pensar que sinto cada vez mais certeza de que estou a educar os meus filhos na direção certa. Ensino-os a darem o seu lugar, a não quererem ser sempre os primeiros a descer no escorrega, a deixarem a parte mais fácil do passeio para os mais velhinhos, a serem dóceis e amáveis um com o outro e com os outros. Estou a fazer um bom trabalho, sei que estou. E se me disserem que vão ser comidos vivos, volto a atirar com um sorriso. Já vi muito cabrão a ser esbofeteado pela bondade de algumas pessoas. E a levar um grande encontrão de sorrisos como os dos meus filhos.
Malta que foi ao meu casamento, botai os olhinhos nisto.

E agora? Já podemos conversar?

As crianças, as crianças...

Vês, João, foi aqui que tu e o mano foram batizados.
O que é isso de batismo, mamã?
Olha, filho, é quando os meninos se tornam cristãos aos olhos de Deus.
(Silêncio para reflexão)
De que cor são os olhos de Deus, mamã?


Pois é, pois é. Muita gente acha de certeza que era um bom momento para dizer que são de todas as cores e abarcam todas as pessoas, mas não é muita gente que teria que responder às perguntas seguintes. Era eu. Sorri apenas.

Começo a achar que ele faz de propósito e só quer é visibilidade aqui no blog

Vestes o miúdo enquanto eu vou buscar os casacos a ver se nos despachamos a sair de casa?
Visto.



Já vestiste o menino?
Já.
Guardaste o pijama?
Não.
Onde está? Não o vejo!
Não sei... não me lembro onde o deixei.


...


Mamããããããããããã, o mano tem o pijama vestido por baixo da roupa da rua!!!!!!