mais memórias para:
verdepinheiroemsepia@gmail.com

sábado, 9 de fevereiro de 2019

Uma pessoa guarda os chinelos de verão no armário numa zona assim para o mais recôndita de forma a não estorvar. Há doze anos que é assim. Uma pessoa guarda, também há doze anos, os pijamas de inverno na gaveta do outro lado mais à mão de forma a ser fácil encontrá-los, porque uma pessoa sabe que ir buscar um pijama à gaveta depois de se tomar banho tem que se lhe diga. A gente sai assim meia desorientada, com as extremidades ao relento e nem pensa direito. 
Ora, vai daí, o homem de uma pessoa pergunta lá do quarto, naquela voz desesperada de quem não quer acordar os miúdos mas tem os miúdos a arrefecer onde estão os pijamas? Uma pessoa responde, com receio de acordar os meninos, mas com os pés quentinhos e a boca a tapar a gargalhada, que estão onde sempre estiveram. É a resposta que uma pessoa mais gosta de dar cá em casa. Quando uma pessoa ouve a porta do armário a abrir do lado errado, a gargalhada sai. Mexe que mexe e volta a mexer e o sacana do pijama não aparece. Também é por isso que uma pessoa costuma levar o pijama consigo para a casa-de-banho e o veste praticamente dentro da banheira. Mas enfim, porta abre e porta fecha e nada de pijama. Lá vai uma pessoa apanhar frio nos pés para poder mostrar que ele estava onde sempre esteve, que mais vale ficar arrepiada mas garantir que mostra que tem razão. Quando chega ao quarto, todo o conteúdo do armário do lado errado estava cá fora. Uma pessoa compreende, uma pessoa também fica com náuseas perante merdas como esta. Lá vai o pijama para cima da cama e os pés de volta para o quentinho. Os chinelos de verão, que estavam, no início deste texto, no armário numa zona assim para o mais recôndita de forma a não estorvar, já não voltaram para lá. Ficaram no meio do quarto. Durante vários dias. A estorvar. Mas só estorvavam segundo uma pessoa, porque quem não os guardou nem dava por eles ali no meio do quarto. 

Só não compreende quem não quer compreender. Uma pessoa calça o 37, é um número pequeno para chinelos no meio do quarto. E são fúchsia, que, como todos sabemos, é uma cor discreta.

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Questões avulsas

1. Uma questão que me atormenta nesta época de saldos: quem caralho inventa os looks para as modelos do site da z a r a? A ideia é fazer-nos acreditar que não se lavam há umas semanas e vestiram peças que já não servem às primas mais velhas? Pois bem: resulta.

2. A minha memória, que já se sabe padecer de uma qualquer espécie de miopia para memórias, está cada vez mais eficiente. Agora consigo lembrar-me do que ia fazer à cozinha! Visto que mais ninguém trata da comida nesta casa, é fazer as contas.

3. Pelos vistos agora a moda é a A S M R. É compreensível. Pelo menos esses ninguém tem que fingir. 

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

❤❤

Já aprendemos os números até 20, por isso 20 é o maior número que conheço. Sabes quanto gosto de ti, mãe? 20.

sábado, 10 de novembro de 2018

Faz hoje cem anos que nasceu o meu Avô. Cem anos. Um século inteiro. Podem passar, a voar, outros cem: o legado que deixou em nós permanecerá. O olhar a abarrotar de orgulho continuará a fazer brilhar os nossos dias. O cheirinho ao assado de domingo manter-se-á à soleira da porta das nossas memórias, assim que entrarmos em casa. Levá-lo-emos connosco à saída também. Para o resto da tarde. O abraço terno ainda aconchegará os nossos dias mais tempestuosos e tornará os bons melhores. Foi este o Amor que nos ensinou,  o que ensinamos agora e sabemos que terá continuidade em quem não teve a sorte que eu tive por poder crescer na sua companhia tão viva e presente como ainda hoje é.

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Hoje ia a caminho do trabalho, logo pela manhã, quando comecei a sentir ar frio a bater-me na cara. Verifiquei os vidros: estavam fechados. Verifiquei o ar condicionado: estava desligado. Verifiquei a chaufagem: nada. Mas que raio. A porra do ar continuava a dar-me na cara. O tempo que levei para perceber que estava a chupar um halls extra strong!

sábado, 20 de outubro de 2018

Sai à mãe #1

Fomos ao armazém dos disfarces (aka espaço de arrumação do sommier) apetrechar-nos para o Halloween, mas o Pedro borrifou-se para os bruxos, esqueletos e abóboras assim que encontrou um fato do super-herói preferido que lá estava desde outros carnavais. Vestiu-o e correu pela casa de capa a esvoaçar.
Aqui um parêntesis: este início de escola, a aprendizagem das letras e dos sons tem sido uma surpresa admirável para o menino. É muito curioso no que toca a linguagem.

Uns minutos de voo depois, vem contar-me a sua descoberta.

Mãe, estive a pensar. Ora ouve isto: cá em casa o herói é o "super ó mãe"!!

Filho de peixe...

Literatura financeira

Num corredor da Fnac, o João passa pela secção da literatura portuguesa. Cruza-se com uma imagem de Fernando Pessoa graffitada contra uma parede.

Mãe, olha aquele senhor que está no teu cartão multibanco.



domingo, 23 de setembro de 2018

domingo, 9 de setembro de 2018

Pai, podemos comprar este jogo?
Não, filho, esse jogo é demasiado caro.
E tu não tens dinheiro, pai?
Não tenho dinheiro para este jogo, pequenino.
Vou contar-te um truque para teres dinheiro, pai: tu tens que dar os teus dentes.
?!?
Sim, podes trocá-los por dinheiro com a fada dos dentes.

:)

Em vésperas do início da escola, o início que marca, para os dois rapazes desta casa, uma nova vida, há duas ou mil coisinhas que quero recordar para sempre. Não vou registá-las aqui porque estão em cada parte de mim, sou feita delas e não quero mostrar-me assim toda.