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sábado, 1 de janeiro de 2022

Barquinho puxado a fio






1989. Era uma menina de dez anos que aproveitava qualquer pedaço de papel para registar os momentos mais felizes do dia. 

Hoje também é dia 1 de janeiro e ainda sinto o fio a puxar-me as mãos pequenas para o barco.

terça-feira, 4 de agosto de 2020

Não posso esquecer-me de levar a toalha quando vou tomar banho.
Não posso esquecer-me de levar a toalha quando vou tomar banho.
Não posso esquecer-me de levar a toalha quando vou tomar banho.
Não posso esquecer-me de levar a toalha quando vou tomar banho.
Não posso esquecer-me de levar a toalha quando vou tomar banho.
Não posso esquecer-me de levar a toalha quando vou tomar banho.
Não posso esquecer-me de levar a toalha quando vou tomar banho.
Não posso esquecer-me de levar a toalha quando vou tomar banho.
Não posso esquecer-me de levar a toalha quando vou tomar banho.
Não posso esquecer-me de levar a toalha quando vou tomar banho.

Acho que já decorei. É que, se peço para ma irem buscar, no fim do banho, tenho 24 gavetas para fechar pela casa fora.

terça-feira, 28 de julho de 2020

domingo, 26 de julho de 2020

Dizem que hoje é dia dos avós. Tenho andado a pensar que, sem ofensa para o Inventor disto tudo, às tantas as coisas estão todas ao contrário. Anda uma pessoa toda a vida a construir - ergue uma casa, semeia um jardim, alicerça uma família, acolhe os netos no colo - para depois deixar cá corações em ruínas. Então não seria melhor, Inventor, que, quando chegasse a hora, partissem antes as paredes, por muito triste que fosse para quem tanto suor limpou da rosto a por tijolo em cima de tijolo, partissem antes os canteiros de salsa, cuidados com tanto amor, partissem as ferramentas na parede da oficina, partissem os canteiros coloridos de granjas e estrelícias, que deram muito trabalho a manter, é certo, mas não seria melhor e mais justo que fizéssemos a despedida dos carrinhos de mão e das mangueiras, das enxadas e das vassouras de folhas castanhas? Não seria melhor e mais justo deixar ir as macieiras e o velho castanheiro? Ou que o padre viesse ajudar-nos a beijar pela última vez o cheiro da figueira ao pé do poço? Despedíamo-nos das roupas na arca, da louça no aparador, dos muros caiados, da fonte do menino no centro do jardim, do arame onde se entrelaçam as mãozinhas encaracoladas do feijão verde e dávamos as nossas ao avô, pousávamos-lhe o braço sobre os ombros curvados pelo tempo e seguíamos juntos para casa para sempre. De certeza que ele ficaria triste por ver desaparecer tudo o que as suas mãos tinham construído, mas o nosso colo consolá-lo-ia tal como o seu nos amparou as lágrimas de cada queda que demos quando éramos pequenos. Que pena ser tudo ao contrário. 💗

terça-feira, 2 de junho de 2020

A aliança

Já cá faltavam os diários diz-me lá outra vez da pandemia, não é? 

Pois claro.

Tenho o hábito de tirar a aliança quando faço carne picada para a moldar em hambúrgueres ou almôndegas. Pouso-a em cima do microondas por achar que é um sítio seguro. Ora, chega sempre aquele dia em que nos desafiamos e achamos que pode correr mal mas não vai com certeza, quase de certeza, à partida, não daquela vez. E pousei-a em cima da toalha na mesa.

Fiz o que tinha a fazer. Jantamos. Arrumamos a cozinha. Quando a minha mão ia a caminho do interruptor da luz para dar o dia por terminado, dei pela falta. Segura, dirigi-me ao microondas. De lá, os meus olhos desviaram-se para a mesa, já despida, e foi então que o vi a regressar da varanda com a tolha na mão. Já sacudiste a toalha? Já. E aspiraste as migalhas? Não. Como não tinha migalhas, fui só sacudir qualquer pó que lá estivesse à varanda. 

Já não saímos de casa há dois meses. Era noite cerrada. Chovia tanto, coitado.

Enfim, só para dizer que uma aliança ondulada tem o seu encanto.


segunda-feira, 1 de junho de 2020

Durante o confinamento, o miúdo disse-me que a única coisa de que sentia saudades da vida normal  eram os almoços com a mãe a meio da semana. Caramba.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Em dias de jogo de futebol, dou por mim a parar tudo o que estou a fazer para prestar mais atenção ao que o homem grita para a televisão durante 90 minutos. É que é rigorosamente igual ao que eu penso dele e digo para dentro todos os dias. É como se me lesse o pensamento quando perdigota Só podes estar a brincar comigo!, E este caralho não vai fazer nada? e Tem vergonha na cara! Mexe-te, palerma!

E posso adiantar-lhe que não terá grande resultado: do outro lado da TV, por muito que ele berre, não vão agir de outra maneira. Deste lado, é o acontece. 

domingo, 26 de janeiro de 2020

Same old, same old...

Que redundante que é vir aqui fazer atualizações!

Em cima da mesinha de cabeceira dos meninos continua disto:

No meu feed privado, abundam as partilhas de receitas de gordices, intercaladas, aqui e ali, com propostas de exercícios para remediar essa predominância e sugestões de prateleiras carregadas de livros para quando o rabo já estiver firme.  


E é isto. Fica, então, a atualização já feita para os próximos anos.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

Pá, eu não quero parecer amarga, mas...

"Dicas para tirar o cheiro a fritos da cozinha:
1. Abra a janela..."

"Dicas para reduzir a humidade em casa:
1. Abra a janela..."

A sério?
Peguem nessa dicas, abram a janela e...
Depois de milhares de fotografias das "melhores equipas do mundo", das mesas de Natal à laia de concurso "Quem enche mais a mesa de Natal de frutos secos dos quais as tâmaras são as últimas a desaparecer", dos votos de festas felizes no primeiro dia de dezembro e feliz ano novo no dia a seguir ao Natal, vem agora a enxurrada impetuosa de páginas "1 de 366". Que raio! Comparar a vida com um livro é muito parvo: os livros são tão fixes. Por exemplo, assaltaram-me a garagem no último dia do ano e levaram apenas produtos de limpeza. Tanto lixo para levar e agora o cabrão obriga-me a ir outra vez às compras por causa de lixívia e abrilhantador de chão. Puta que o pariu. Isto num livro nunca aconteceria.

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Não há como não adorar os sons desta casa.
Primeiro o mamã, mamã!
Depois o mãe, oia!
Agora o mãe.
O som do piano ao fundo. Dantes a duas, agora a quatro mãos.
As mesmas quatro pousadas no meu colo, emaranhados no sofá.
Não como não adorar os sons desta casa.
Às vezes páro e julgo ouvir estes sons vindos do fundo do mar, mergulhada na imensidão dos dias que passam inadiavelmente. É quando parece ser possível abrandá-los.
Não há como não adorar. É tão fácil: é só estar atenta. E ouvir os abraços.


terça-feira, 27 de agosto de 2019

Encher o peito de colo

Num dia somos crianças, lambemos o sal da pele, adormecemos no colo dos pais, apanhamos espadas do chão da floresta, saltamos e choramos e rimos.
No outro, já crescidos, lambemos feridas, adormecemos ao colo os filhos, saltamos menos mas recolhemos memórias em vez de espadas e ainda choramos e rimos. Com elas.

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

A nossa enfermeira é amorosa. Conhecemo-nos desde que nascemos como família. Sabe tranquilizar os miúdos naqueles momentos maldosos mas necessários durante as visitas que lhe fazemos. O truque hoje foi:
Pedro, conta até 3 e diz-me quem é a miúda mais bonita que conheces!
Aos 3, a agulha faz das suas e o Pedro diz, com naturalidade,
A mãe


💗

terça-feira, 11 de junho de 2019

Os homens e os gadgets

O homem comprou um relógio com várias funções. Ele é bússola, ele é GPS, ele é medidor de velocidade, ele é osciloscópio, ele é altímetro, ele é monitor de ritmo cardíaco, ele é pedómetro, ele é treino por objetivos, ele é medidor de calorias, ele é monitor de sono e de stress, ele é sensor de cadência.

Um desperdício. Dava-me os 300 euritos, que eu faço isso tudo diariamente. E, como sou muito mais chata insistente, vai-se a ver e faço mais efeito do que um gadgetzinho. Toda a gente que tem conhecimento proverbial sabe que mais vale uma gralha nos ouvidos do que um relógio no pulso

Vejamos: bússola. Se lhe juntasse um astrolábio e uma balestilha e nos levasse a todos ao Brasil é que era fino. É que está aqui um vento frio que dói. GPS? Depois da bússola, não faria muito mais sentido que o relógio trouxesse um astrolábio? E comigo a indicar-lhe constantemente o caminho terrestre para a cozinha precisa de bússola? Really?! Atrás desse vêm logo o medidor de velocidade, o osciloscópio, o altímetro e o monitor de ritmo cardíaco - quando alguém está no sofá enquanto eu ando em contrarrelógio e pergunta o que é o jantar, a tampa que me salta imprime logo velocidade, oscilação, altitude e ritmo que cheguem ao momento! Quanto ao pedómetro, agora já vai tarde. Fixe, fixe era que tivesse decorado quantos passos são do nosso quarto ao dos miúdos quando eram pequenitos. Relativamente ao treino por objetivos, isso já andamos a fazer cá em casa há uma porradona de anos no que toca às secções de lavagem, secagem e engomadoria. Ainda há muito caminho a percorrer. Medidor de calorias. Não há onomatopeia que chegue para a minha gargalhada. A porta do frigorífico chia, pá! Nós ouvimo-la à noite quando já tudo está na cama! Aí está o "medidor de calorias"! Monitor de sono. Nem sei se comente isto. Ressonar toda a noite não mede que chegue? E podemos dispensar o medidor de stress: os palavrões são um excelente indicador de que foi a outra equipa a marcar. No que toca à cadência, to-dos-os-di-as. É essa a cadência a que nos devemos agarrar para colocar a roupa suja no cesto. Dentro do cesto. Não em cima da tampa, para que fique claro. Parece-me que as funções de relógio, alarme e cronómetro chegavam, mas até essas posso ser eu a desempenhar. Só não o faço, porque não quero ser aborrecida. E porque não fiquei com os 300 euros.

domingo, 26 de maio de 2019

Passaram por mim no corredor. Iam em direção ao WC. Os chinelos de ambos tinham ficado na sala. À porta, pararam e o João deu boleia ao irmão em cima dos pés. 
- Estás meio constipado, não quero que vás descalço para o chão frio da casa-de-banho- sussurou-lhe ao ouvido. O meu coração atento ouviu.


💓

Sabes, mãe, acho que afinal não posso casar contigo: não consigo pegar em ti ao colo para te levar para dentro de casa!...

sábado, 27 de abril de 2019

Tão literal!

Em casa da tia há dois gatos. Nenhum deles dado a pessoas. O Pedro tem pena que assim seja. Mas o primo explica...

Por que é que o gato não me liga?
Porque eles têm medo de estranhos.
Mas eu não sou estranho, sou um menino normal!






Jogo limpo

Numa visita ao Castelo de Guimarães, um dos funcionários responsáveis pela verificação dos bilhetes ia fazendo uso do seu apito a alertar os turistas para o perigo de se sentarem nas ameias para tirarem fotografias. Após a valente apitadela, gritava Ó senhoras, saiam daí! Não podem estar aí sentadas! A coisa repetiu-se diversas vezes e, de cada uma delas, o João e o Pedro desviavam a atenção do que estavam a observar para a estridência do funcionário e para os olhares de desprezo das senhoras das ameias. Quando chegámos nós aos merlões, o Pedro avisou:

Ninguém de aproxima da muralha! Não ouviram o árbitro?

domingo, 31 de março de 2019

Da importância de lavar o nariz com soro. Ou a mentalidade.

Os homens não choram.
Não mostram fraqueza em público.
Não mudam a fralda aos filhos nem os adormecem.
Não estendem roupa.

Parece antigo e despropositado, mas não é. É atual, é comum e estranhamente vigente em muitos lares.  

É por estas e por outras que, cá em casa, quando os miúdos se assoam, em vez do costumeiro "Assoa-te como um homem", ouvem "Assoa-te como uma mulher em trabalho de parto". É garantido que a ranhoca sai toda.

domingo, 17 de fevereiro de 2019

Prefiro pintar as unhas em casa. O problema é que não tenho paciência para esperar que sequem e ando durante não sei quanto tempo a jogar ao mikado com talheres, papéis, roupa por arrumar e crianças que não sabem entreter-se sozinhas.