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domingo, 21 de agosto de 2011

Plurissignificação e subjectividade



Hoje fomos apanhados por uma grande chuvada acompanhada de trovoada. Ainda tentei manter-me na praia, mas a coisa agravou-se e foi impossível. Estava ao pé do mar, corri o mais rapidamente que pude até ao carrinho do miúdo, agarrei em todas as nossas tralhas que estavam espalhadas pelo areal, enfiei-as nos sacos aleatoriamente e percorremos dois quarteirões, no meio da debandada geral (à nossa frente, um guarda-sol com pernas quadradas e mal depiladas e um bebé ao colo corria e gritava com voz máscula "Eia, man, que parecem Kalashnikovs!"), para encontrar uma varanda que nos protegesse. Ela ficava por cima de um café. À porta estava um cavalheiro a apreciar a confusão, fumando um cigarro pensativo, como dizia o outro. Eu levava o João no carrinho e os sacos todos pendurados. Afastou-se milimetricamente para nos deixar aproximar: "Chegue-se para dentro, agasalhe o menino!", disse amabilíssimo. Eu ia aproximando toda a carga do senhor e ele ia repetindo Chegue-se, chegue-se, que ela cai forte!
O chuveiro foi abrandando, calmamente, até que parou em definitivo. Mas o homem achava que não, que ainda caía forte ou que ainda voltaria a cair e insistia e insistia. Lá nos fizemos ao caminho, para regressar a casa.
Uns metros depois apercebi-me que levava uma mama de fora.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Venho enternecida de uma visita ao zoo. O que eu admiro gestos de respeito e carinho e solidariedade e entrega. Uma senhora não quis aborrecer os animais do zoo, cometendo a grave falta de utilizar a expressão "apanhar no focinho". Mãe dedicada, ia passeando o seu cigarro, deitando aqui e ali, pelo canto do olho, intensa atenção a um rapazinho que, pelos vistos, está a aprender a andar sozinho. A dada altura o miúdo cai, depois de tropeçar num paralelo: "Se te magoas dou-te! Tu hoje ainda vais levar nos olhos!".

Que delicadeza! Que sensibilidade! Venho enternecida da visita ao zoo.


domingo, 17 de julho de 2011

Orgulho marsupial


Ontem à noite, esta casa testemunhou algo que me deixou boquiaberta: o meu avô de 92 anos, que já se arrasta um bocadito para chegar ao café, jogou à bola com o João com uma genica fantástica, com direito a fintas e grandes acrobacias!
As crianças despertam-nos a juventude (como eu gostava de me lembrar disto nas noites em que não dormi nada para lhe dar de mamar...) e ajudam-nos a regressar aos tempos em que éramos mais nós do alguma vez voltaremos a ser.

O pirata trouxe-me tanto de novo, mas também me lembra todos os dias de quem me compõe. Lembra-me o gosto pelas coisas do campo dos meus avós paternos, o sorriso protector da minha avó materna, as mãos ternas do meu tio, a cara e o cabelo inesquecíveis do meu irmão, o incrível engenho do meu pai, a inteligência encantadora da minha mãe e, pelos vistos, segundo a própria, o indiozinho também tem o queixo igualzinho ao da minha tia paterna.

Parece que herdou o jeito para futebol do meu avô materno. Ah! Os bons velhos tempos do Sport Progresso de Paranhos...

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Coisas boas


Nos dias em que tudo corre bem, lembro-me que sorrio quando

leio as páginas do lado direito de um livro, as que me permitem pousá-lo no colo e ocupar as mãos com um copo de batido de maçã e o pacote de bolachas

encontro espontaneamente amigos que já não vejo há anos

estou perante uma turma inteira bem disposta e com vontade de aprender

sinto a água do mar nos pés pela primeira vez no ano

revejo o mesmo filme que já vi dezenas de vezes e antecipo as cenas

ponho alguém a chorar a rir

janto no verão sem ter que ligar a luz da cozinha

lambo a tampa do iogurte

tenho que ler um documento chato e descubro que a última folha só tem uma página escrita

converso com música de fundo e a letra combina com o tema da conversa

rapo a bacia em que bati a massa do bolo

fico na praia até às 20 horas num dia de calor

chego antes da hora marcada

tenho vontade de sorrir a meio de um beijo

recordo o cheiro da minha escola primária

solto o cabelo depois de andar todo o dia com rabo de cavalo

bebo chocolate quente, mesmo quando está calor

digo bom dia

cheiro hortelã

adormeço a ouvir a chuva

estreio uma caneta

estou sozinha em casa, com a música nas alturas, a cantar aos gritos e a dançar desenfreadamente

vejo a carpete da entrada aspirada

observo alguém de quem gosto a dormir em tranquilidade.



Tenho saudades desses dias.



Por outro lado, hoje só detesto velas de cheiro e o frio que sinto quando saio do banho.



Nada mau.

domingo, 10 de julho de 2011

A última grande nalgada na minha última grande obsessão

Há um ano, estava ainda a dar de mamar e tinha uma mania gigantesca: não podia apanhar nada para não o passar ao miúdo.
Ora, em plenas matrículas, um dos alunos que tinha reprovado chegou cabisbaixo, envergonhado. Sentou-se à minha frente, depois de me cumprimentar, e ali ficou a olhar para o chão. Achei que alguma coisa estava fora do sítio, mas não me apercebi logo do que era.
Depois de preenchidos todos os documentos, perguntei se estava tudo bem.

Oh, nem por isso. Não tenho sorte nenhuma. Veja lá: não me chegava ter reprovado (andaste todo o ano a brincar), ainda apanhei varicela (salto para trás)... e estou com piolhos! (ahhhhhhhh!!!!!!)

quinta-feira, 23 de junho de 2011

São João

Quando era miúda, íamos para o actual recinto onde se faz a feira do artesanato em vila do conde levar marteladas na tola e comer algodão doce. Sempre que me lembro disto, vem-me aquele sabor cor-de-rosa à boca e parece que fico com as mãos pegajosas. Acho que nunca me conseguiram acertar com a parte fofa do martelo e aquilo dói que é doer! Mas lá estávamos, ano após ano, a percorrer os caminhos em terra vermelha partidos a meio por bancos de jardim em ferro pousados nas fatias de relva.

Também havia pipocas coloridas! Mas o algodão doce...

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Dia da Criança




As fugas para a bouça de onde voltávamos com ratazanas enormes agarradas pela cauda para assustar as vizinhas;
O calipo de coca-cola a escorregar pelos dedos enrugados de tardes inteiras a apanhar ondas no mar;
Mil e uma mãos dentro do alguidar carregado de pardais fritos;
O verde sem-fim da quinta de beiriz a espreitar-me pela janela do quarto;
As mangueiradas de alívio durante a madrugada na Idanha, logo depois de uma história de terror contada debaixo dos lençóis com a lanterna sem pilhas;
Esparguete e ovo estrelado quando não apetecia comer;
As rãs esturricadas nas tampas de saneamento do rosmaninhal às 4 da tarde;
O taz, o bip bip, o coiote e speedy na tv galicia.
Sacar as chaves do carro às escondidas e ir dar uma volta curta.
Os risos.
Os murros no estômago só para ver se dói muito.
Os bilhetes de desculpas por baixo da porta do quarto.
Os sonhos.
Os planos.
As certezas.





segunda-feira, 16 de maio de 2011

Apesar de ser uma invasão (ainda que não identifique os intervenientes), não podia deixar de vir aqui guardar, neste meu baú de memórias, a cena romântica mais enternecedora a que já assisti.
Lembro-me (razoavelmente) bem de como me sentia de coração partido nos meus idos teens. E agora, apesar da carapaça racional endurecida pelo tempo (cof cof), estes momentos continuam a deixar-me de lágrimas ao canto do olho/a escorrer-me pela cara abaixo.
Na semana que passou, partiram o coração a um dos meus miúdos. Passou a aula inteirinha a chorar (ora cá está mais uma desvantagem das aulas de 90 minutos! É tempo a mais para um coração despedaçado se lamentar): cabisbaixo, chorava baixinho, como se miasse. Acabou por deixar de fazer barulho, não fosse incomodar os colegas, e recusou cada convite para sair da sala e "ir apanhar ar". Foi chorando, até que olhou para cima, limpou os olhos e pediu para ir lavar a cara. Chorar assim, na frente de todos os colegas, não deve ser fácil. Enquanto esteve fora, passei pela cadeira vazia. Em frente, no caderno, abrira-se uma cratera. Mesmo no centro das folhas. Caíram-lhe tantas lágrimas que o papel se desfez. Senti um calafrio. Não comentei. Todos viram. Ninguém disse nada. Arrancaram-lhe as folhas quebradas pelo buraco e deixaram o caderno no sítio. Ninguém disse mais nada sobre o assunto e, quando tocou, saíram todos da sala com os olhos vermelhos. Eu também.

domingo, 8 de maio de 2011


Cara Enjoadaopasseioétodomeuquefoiopapáqueomandoupôraqui,

Da próxima vez que passares por mim, volta a olhar-me de alto a baixo com desdém, mas, por favor, certifica-te de que tiraste a etiqueta do preço da sola dos sapatos e escusas de ouvir uma gargalhada insistente na nuca. Desviar-me no passeio para TU passares à vontade? Então não, coração?

Lembro-me de, quando era miúda, esperar por Março para ver as campainhas amarelas que se apoderavam dos vasos lá em casa. Gostava da invasão de cor, mas achava ainda mais piada ao facto de ser uma imagem tão transitória.

Lembro-me de, quando era miúda, escrever o meu nome no cimento fresco e de me desviar para ir calcar a gravação que tinha feito quatro ruas abaixo. Achava graça àquela permanência.

Ainda hoje sou assim. Vejo beleza em tudo. É possível que me encontre no efémero. É possível que realize no eterno. É possível que não regule bem...